Eletrificação das operações: o que muda nas decisões sobre energia

Entenda como a eletrificação pode alterar consumo, demanda, infraestrutura, custos e emissões e por que cada operação exige uma análise específica.

Por Fabio Frasson

out. 06, 2026

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Eficiência Energética

A eletrificação de diferentes usos de energia vem ganhando espaço em diversos setores da economia. Veículos, sistemas de aquecimento, equipamentos industriais e outras aplicações que tradicionalmente utilizam combustíveis podem, em determinadas condições, passar a utilizar eletricidade.

Esse movimento faz parte de uma transformação mais ampla no sistema energético. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), a demanda mundial por eletricidade deve crescer, em média, 3,6% ao ano entre 2026 e 2030. É uma taxa significativamente superior à média observada na década anterior. Indústria, veículos elétricos, climatização, bombas de calor e data centers estão entre os fatores que contribuem para esse crescimento.

Para as empresas, porém, a eletrificação da operação pode alterar o perfil de consumo de energia, a demanda elétrica, a infraestrutura necessária, os custos de operação e até os resultados ambientais de uma atividade.

Por isso, a substituição de um combustível por eletricidade precisa considerar o funcionamento da operação como um todo.


Eletrificar o quê?

A primeira questão é justamente essa. Nem todo uso de energia apresenta as mesmas condições para eletrificação.

Na indústria, por exemplo, uma parcela importante da energia é utilizada na produção de calor. A temperatura necessária, a característica do processo e a forma como esse calor é utilizado fazem diferença na escolha da tecnologia.

A IEA aponta que, nas indústrias menos intensivas em energia, uma parcela relevante da demanda de calor está em faixas de baixa temperatura, de até aproximadamente 200 °C. Nesses casos, existem tecnologias comercialmente disponíveis, como bombas de calor, que podem permitir a eletrificação de determinados processos. Já nas indústrias intensivas em energia, muitos processos dependem de temperaturas superiores a 500 °C, o que apresenta desafios tecnológicos e econômicos diferentes.

Isso ajuda a entender por que as possibilidades de eletrificação variam tanto de uma operação para outra.

Uma indústria de alimentos, uma fábrica de produtos químicos, uma operação de mineração e uma planta siderúrgica podem utilizar energia elétrica de maneiras muito diferentes. Mesmo dentro de uma mesma empresa, diferentes etapas do processo podem apresentar condições distintas.

O Departamento de Energia dos Estados Unidos, por exemplo, reúne em seu guia sobre eletrificação industrial tecnologias como aquecimento por resistência, indução, infravermelho, micro-ondas e radiofrequência, bombas de calor, caldeiras elétricas e sistemas elétricos para água quente, além de aplicações em climatização e transporte interno. A própria publicação destaca que essas tecnologias possuem aplicações, limitações e possibilidades de integração diferentes.

Portanto, falar em eletrificação sem considerar o uso específico da energia pode esconder justamente a parte mais importante da análise.


A troca de combustível muda a forma como a operação usa energia

Quando um equipamento que utiliza gás, óleo ou outro combustível passa a utilizar eletricidade, parte da demanda por aquele combustível deixa de existir. Ao mesmo tempo, aumenta a demanda por eletricidade.

Dependendo da aplicação, o consumo de eletricidade pode aumentar de forma significativa e alterar o perfil de carga da instalação. Isso pode exigir avaliação da infraestrutura elétrica, da capacidade disponível, dos horários de consumo e da forma como a energia é contratada.

Também é necessário observar a eficiência da nova solução. O fato de um equipamento ser elétrico não significa, por si só, que ele consumirá menos energia ou terá menor custo operacional. O resultado depende da tecnologia utilizada, das condições de operação, do desempenho do equipamento substituído, dos preços relativos da eletricidade e dos combustíveis e da forma como a solução será integrada ao processo.

A própria IEA chama atenção para esses aspectos ao analisar a eletrificação do calor industrial. Algumas tecnologias podem apresentar vantagens operacionais, como maior controle de temperatura e rapidez na variação da carga, mas as condições econômicas podem ser bastante diferentes conforme o país, a aplicação e a relação entre os preços da eletricidade e dos combustíveis.

Assim, uma análise de eletrificação precisa ir além da comparação entre dois equipamentos.

A pergunta não é somente quanto custa o equipamento elétrico em relação ao equipamento convencional. É necessário avaliar como a mudança interfere no consumo de energia, na operação, na infraestrutura, na manutenção, na disponibilidade e nos custos ao longo da vida útil.


O contexto brasileiro também importa

No Brasil, essa discussão acontece dentro de uma matriz elétrica com participação predominante de fontes renováveis.

De acordo com o Balanço Energético Nacional 2026, a oferta interna de eletricidade em 2025 foi de 783,3 TWh, enquanto o consumo final chegou a 667,8 TWh. As fontes renováveis representaram 86,6% da oferta interna de eletricidade. O setor industrial respondeu por 36,1% do consumo final de eletricidade, seguido pelo setor residencial, com 28,2%.

Esses números ajudam a colocar a eletrificação em perspectiva. Uma determinada substituição de combustível por eletricidade pode ter efeitos diferentes em países e sistemas elétricos distintos. O resultado ambiental de uma solução elétrica, por exemplo, está relacionado à forma como a eletricidade é produzida.

No Brasil, a elevada participação de fontes renováveis na oferta interna de eletricidade cria condições particulares. Isso, entretanto, não significa que toda eletrificação resulte automaticamente em redução de emissões ou em vantagem econômica. É preciso considerar a aplicação, o consumo adicional de eletricidade, a eficiência da tecnologia e as condições específicas da operação.

Também é importante observar que o consumo de eletricidade da indústria brasileira não cresce de maneira uniforme.

Segundo o Anuário Estatístico de Energia Elétrica 2026, a indústria consumiu 199.341 GWh em 2025, um aumento de 0,7% em relação ao ano anterior. Entre os 37 setores monitorados pela EPE, 22 apresentaram aumento de consumo, enquanto outros registraram redução. A variação também foi bastante diferente entre segmentos, como mineração, máquinas e equipamentos, alimentos, produtos químicos, papel e celulose e metalurgia.

Isso reforça uma questão importante: mesmo quando uma tendência é observada em escala nacional, as decisões continuam dependendo das características de cada operação.


Eletrificação e eficiência energética precisam ser analisadas juntas

Outro cuidado importante é analisar eletrificação e eficiência energética em conjunto.

Substituir uma fonte de energia por outra pode ser uma alternativa para determinada aplicação, mas isso não elimina a necessidade de avaliar se a energia está sendo utilizada de forma eficiente.

Antes de substituir uma fonte, pode ser necessário entender perdas, condições de operação, controle de processos, isolamento, motores, sistemas térmicos e outros elementos que influenciam o consumo.

A IEA destaca a importância de medidas de eficiência e aponta oportunidades de eletrificação para determinados usos de calor, especialmente em processos industriais de baixa temperatura. Entre as medidas apontadas estão otimização de processos, gestão de energia, melhoria da eficiência de motores, isolamento e eletrificação de determinados usos de calor.

Essa relação é particularmente importante porque uma operação ineficiente pode continuar sendo ineficiente depois da troca da fonte de energia.

Imagine, por exemplo, um processo que apresenta perdas térmicas significativas. A simples substituição do equipamento que fornece calor não resolve necessariamente a origem dessas perdas. Em determinadas situações, melhorar o processo antes da eletrificação pode alterar o tamanho do equipamento necessário, a demanda elétrica e até a própria viabilidade econômica da mudança.

A ordem das decisões pode, portanto, fazer diferença.


Uma decisão que exige mais do que escolher uma tecnologia

A eletrificação das operações tende a ganhar espaço à medida que novas tecnologias se tornam disponíveis e a eletricidade passa a atender uma parcela maior dos usos finais de energia. A própria IEA projeta que a participação da eletricidade no consumo final mundial aumente de 21% em 2025 para 24% em 2030.

Para as empresas, a eletrificação passa a ser mais uma alternativa a ser considerada nas decisões sobre energia. A escolha depende das características da operação, da tecnologia disponível, da infraestrutura, dos custos envolvidos e dos resultados esperados.

Em uma decisão desse tipo, algumas perguntas são fundamentais: qual é o uso de energia que se pretende modificar? Qual tecnologia atende às características do processo? Como ficará o consumo de eletricidade? A infraestrutura existente suporta a nova demanda? Como mudam os custos de operação e investimento? Existem impactos sobre a continuidade ou a flexibilidade da operação? Como a mudança interfere nas emissões? Há alternativas tecnológicas que apresentam resultados diferentes?

A resposta para essas perguntas depende de dados da operação, características técnicas, condições econômicas e objetivos da empresa. Por isso, a eletrificação precisa ser analisada dentro do contexto de cada operação. Mais do que escolher uma tecnologia, é preciso compreender como a mudança altera o uso da energia e quais consequências ela traz para o negócio.

À medida que a eletricidade passa a ocupar novos espaços na indústria, nos edifícios e nos transportes, entender os efeitos dessa mudança se torna cada vez mais importante para a gestão de energia. A decisão envolve características da operação, desempenho dos equipamentos, capacidade da infraestrutura, custos, disponibilidade de energia e emissões.

É essa análise que permite avaliar, com base em dados e nas condições reais da operação, quando a eletrificação faz sentido e quais aspectos precisam ser considerados antes de uma decisão.


Fontes e referências utilizadas

International Energy Agency (IEA)

Electricity 2026 – Demand

Energy Efficiency 2025 – Industry

Renewables for Industry

Can low-temperature heat in factories be electrified competitively?


Empresa de Pesquisa Energética (EPE)

Balanço Energético Nacional 2026

Anuário Estatístico de Energia Elétrica 2026 – Destaques


U.S. Department of Energy – Better Buildings & Better Plants

Industrial Electrification Technologies Booklet


Autoria técnica

Este conteúdo foi desenvolvido pela equipe de conteúdo da Mitsidi, com base em referências técnicas, dados públicos e na experiência da empresa em eficiência energética, gestão de energia e descarbonização.

Os materiais publicados nesta seção são elaborados pela equipe editorial e revisados por especialistas técnicos da Mitsidi.


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